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Cinira Andrade

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O dia 20 de novembro, feriado da Consciência Negra em diversos estados e municípios do Brasil, não é apenas um ponto vermelho no calendário. É um marco histórico que nos chama — ou deveria chamar — para uma reflexão madura sobre o país que fomos, o que somos e, principalmente, o que insistimos em não encarar. É uma data que nos lembra que a luta contra o racismo não é capítulo encerrado, mas livro ainda sendo escrito — e com urgência.

 

A escolha do dia homenageia Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares e símbolo da resistência negra contra a escravidão. Zumbi representa o que a história oficial por muito tempo tentou esconder: que a população negra não foi apenas vítima; foi protagonista de sua própria liberdade, resistindo, organizando-se, protegendo vidas e construindo alternativas de existência digna em um país que, muitas vezes, parecia conspirar contra isso.

 

Mas o 20 de novembro vai muito além de uma homenagem. Ele serve como um espelho que muitos evitam encarar. Ao longo dos séculos, a população negra brasileira enfrentou — e ainda enfrenta — um conjunto persistente de desigualdades: da discriminação velada às violências mais explícitas, do acesso precário à educação e saúde às barreiras invisíveis do mercado de trabalho. Esse cenário não é fruto do acaso. É fruto de um passado que se recusa a passar quando não é compreendido, reconhecido e reparado.

 

Se houve luta, também houve avanços — e é justo reconhecê-los. Hoje, movimentos sociais, instituições, universidades, profissionais do direito, educadores e lideranças comunitárias promovem discussões, ações e políticas que buscam transformar realidades. A criação de leis como o Estatuto da Igualdade Racial, a implementação de políticas afirmativas e a ampliação dos debates sobre representatividade mostram que, apesar de lenta, a roda da história está girando.

 

Ainda assim, não há espaço para ingenuidade. Racismo não se combate com silêncio, nem desigualdade desaparece com indiferença. O 20 de novembro serve como alerta para lembrarmos que a sociedade que desejamos depende de coragem coletiva — a mesma coragem que sustentou Zumbi, Dandara e tantos outros que enfrentaram a opressão de peito aberto.

 

Este dia também é um convite. Um convite para conhecer mais do legado negro, valorizar identidades, reconhecer talentos, fortalecer políticas públicas e romper com a lógica que insiste em naturalizar injustiças. Um convite para entender que consciência negra não é tema exclusivo da população negra; é responsabilidade de todos.

 

Celebrar o 20 de novembro não significa olhar para trás com culpabilização, mas com honestidade histórica. Significa assumir que é possível — e necessário — construir um país mais justo, plural e igualitário. E que a luta contra o racismo não pertence ao passado, mas ao agora.

 

Que este feriado nos lembre que liberdade, dignidade e respeito não são concessões: são direitos. E direitos, como bem sabemos no mundo jurídico, só sobrevivem quando alguém os defende com coragem.

 

E coragem, felizmente, não falta a quem conhece a verdade de sua história.

 

Alisson Silva Garcia

Advogado criminalista e membro do conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial em São Bernardo do Campo-SP.