
Publicação
OS IMPACTOS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NA PRODUTIVIDADE DAS EMPRESAS
16 de junho de 2026 · por Alisson Garcia
No próximo dia 19 de junho de 2026, terei a honra de conduzir uma palestra no BNI Aliança para discutir um tema que, embora delicado, exige um olhar atento do mundo corporativo: a violência doméstica . Mais do que uma grave violação de direitos humanos, ela é um fenômeno que atravessa os muros das residências e se instala silenciosamente no ambiente de trabalho, comprometendo resultados, equipes e a saúde organizacional como um todo.
Muitos gestores ainda tratam a violência doméstica como um assunto restrito à esfera familiar. A realidade, porém, mostra que seus efeitos — emocionais, físicos e financeiros — geram custos mensuráveis para as empresas, refletindo-se em absenteísmo, queda de produtividade, alto turnover e riscos à reputação corporativa.
Um problema social que se torna um problema empresarial
A violência doméstica atinge milhões de brasileiros e brasileiras. Embora as mulheres sejam as vítimas mais frequentes e mais vulneráveis — sobretudo em contextos de violência física, sexual e psicológica —, os homens também são afetados, ainda que de forma subnotificada. Dados recentes indicam que cerca de 10% dos casos de violência doméstica no Brasil envolvem homens como vítimas, muitos deles sofrendo agressões psicológicas, patrimoniais ou até físicas, mas que não denunciam por medo, vergonha ou falta de acolhimento.
Segundo a Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (PCSVDF Mulher), da Universidade Federal do Ceará em parceria com o Instituto Maria da Penha , mulheres em situação de violência faltam, em média, 18 dias por ano ao trabalho . O estudo também revela que 12,5% das empregadas pesquisadas sofreram violência doméstica nos 12 meses anteriores, gerando uma perda estimada em R$ 64,4 milhões apenas nas capitais nordestinas analisadas.
Mas o que esses números não mostram é o impacto silencioso sobre os homens: colaboradores que chegam ao trabalho exaustos emocionalmente, com ansiedade, depressão ou dificuldade de concentração — muitas vezes sem que seus gestores saibam o motivo.
Os reflexos dentro da empresa — e não importa o gênero
Quando um profissional — homem ou mulher — vive em um lar violento, sua capacidade produtiva é severamente comprometida. Os sinais são muitos e, infelizmente, comuns:
– Dificuldade de foco e tomada de decisões;
– Queda visível na qualidade das entregas;
– Aumento de erros operacionais e retrabalho;
– Faltas injustificadas e atrasos recorrentes;
– Conflitos interpessoais no time;
– Afastamentos médicos por estresse, síndrome do pânico ou outras condições psicossomáticas.
Esses sintomas não escolhem gênero. Tanto a mulher que sofre agressões físicas quanto o homem que vive sob ameaças ou humilhação constante carregam o mesmo peso emocional para o escritório. A diferença é que, no caso dos homens, a dor raramente é reconhecida como violência doméstica — o que os deixa ainda mais isolados e sem rede de apoio.
O custo invisível — e igualmente pesado — para as organizações
A violência doméstica gera despesas que não aparecem nos balanços contábeis, mas corroem os resultados. Substituição de talentos, afastamentos previdenciários, perda de produtividade, clima organizacional prejudicado e aumento da rotatividade são apenas alguns dos custos diretos.
Além disso, há o risco concreto à segurança no ambiente de trabalho. Muitos agressores, independentemente do gênero da vítima, extrapolam os limites do lar e passam a perseguir ou ameaçar a vítima dentro da empresa, colocando em risco não apenas ela, mas toda a equipe.
A ONU Mulheres já alerta que a violência contra a mulher reduz a participação econômica feminina e compromete o PIB. No entanto, pouco se fala sobre como a violência contra homens — ainda que em menor escala — também gera perdas de produtividade e afasta talentos que poderiam estar contribuindo ativamente para o crescimento organizacional.
O papel estratégico das empresas: acolher sem estereótipos
Mais do que uma obrigação ética, o enfrentamento da violência doméstica tornou-se uma questão de gestão estratégica. Empresas que implementam políticas de acolhimento e suporte efetivo colhem benefícios claros:
– Redução de afastamentos e licenças médicas;
– Melhora do clima organizacional e do engajamento;
– Aumento da retenção de profissionais qualificados;
– Fortalecimento da imagem institucional e do compliance ESG;
– Criação de uma cultura de segurança psicológica para todos.
Mas para que essas políticas funcionem, é essencial que elas sejam inclusivas e livres de estereótipos. Isso significa:
– Oferecer canais seguros e sigilosos de acolhimento para todos os gêneros;
– Capacitar lideranças para identificar sinais de sofrimento em qualquer colaborador, sem julgamentos;
– Promover campanhas de conscientização que desconstruam a ideia de que violência doméstica é “coisa de mulher” ou “coisa de homem”;
– Estabelecer parcerias com instituições especializadas que atendam tanto mulheres quanto homens em situação de vulnerabilidade.
Homens agressores também precisam de orientação. Muitos deles reproduzem padrões violentos que aprenderam em suas próprias histórias familiares. Oferecer programas de reeducação, grupos reflexivos e acompanhamento psicológico pode ser o primeiro passo para romper o ciclo de violência — e, ao mesmo tempo, preservar o emprego e a dignidade desses colaboradores, evitando desligamentos que custam caro à empresa e à sociedade.
Conclusão: um olhar sistêmico e humano
A violência doméstica não é um problema privado. É uma questão social que afeta profundamente a produtividade, a saúde mental e a sustentabilidade das organizações . Mas, acima disso, é uma ferida que sangra em lares de todos os perfis — e que exige uma resposta igualmente abrangente.
Quando a empresa enxerga seus colaboradores como pessoas inteiras — com dores, histórias e contextos diversos —, ela se torna capaz de construir ambientes mais seguros, justos e produtivos. Acolher a vítima é essencial . Orientar o agressor é transformador. E incluir o homem, seja como vítima ou como alguém que precisa de ajuda para mudar, é um passo corajoso e necessário para uma sociedade mais equilibrada.
No dia 19 de junho de 2026 , durante minha apresentação no BNI Aliança, aprofundaremos essa reflexão e discutiremos como o setor empresarial pode — e deve — atuar de forma ampla, humanizada e estratégica no enfrentamento à violência doméstica.
Porque proteger vidas é proteger negócios. E proteger todos os gêneros é construir um futuro mais forte .
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